Parashá Vaishlach

Pérolas Vaishlach 

(32:4 – 36:43)

Estamos de passagem 


Na porção da Torá lida nesta semana, Vaishlach, lemos a afirmação de Iaacov: “Eu permaneci – garti – com Lavan”. (Gên. 32:4). Rashi observa que a palavra garti equivale, numericamente, a 613. Assim, ao pronunciar garti, Iaacov sugere: “Embora eu tenha permanecido com o perverso Lavan, observei as 613 mitsvót (mandamentos)”.

“Ter permanecido” sugere que Iaacov tenha vivido como um estranho junto a seu sogro. Tudo o que caracterizava Lavan, todos os objetos e animais; seus bois, burros, rebanhos; e seus servos e criadas eram, para Iaacov, nada mais que transitórios – garti – algo estranho, efêmero. Pertences que não se relacionavam com o seu verdadeiro eu. Então, onde Iaacov não seria um estranho? Onde foi que ele não apenas permaneceu, mas morou? Seu verdadeiro lar era sua alma, seu envolvimento com o estudo da Torá e a prática de mitsvót.

Certa vez, o Rabino Dov Ber, o Maguid de Mezritch (cujo aniversário comemoraremos nesta próxima semana, em 19 de Kislev) foi questionado sobre o porquê de sua casa ser tão simples, pois continha apenas uma mesa e cadeiras que se transformavam em cama à noite. O Maguid explicou: “Em casa, é preciso tudo. Em uma jornada, porém, não importa se o abrigo temporário possui móveis não tão bonitos; afinal, é apenas parte de uma jornada”. Para ele, sua vida era apenas parte de uma jornada rumo ao mundo eterno da verdade. Ao manter suas preocupações materiais “adormecidas”, Iaacov garantiu que não houvesse interferências em sua vida espiritual e, ainda, que a dimensão espiritual penetrasse na material – transformando a matéria em representação de algo íntimo e sagrado.

A Torá e suas instruções são eternas, relevantes para todo judeu em todos os tempos e lugares. A lição acima é a seguinte: todo judeu deve reconhecer que, embora seu ambiente, seu mundo, possa parecer imperfeito, todos podemos nos preparar para o momento da redenção completa. Essa preparação é orientada pelas palavras de Iaacov, “Eu permaneci com Lavan”, ou seja: a percepção de que o mundo material é mobília finita, sinônimo de garti; e que apenas a bagagem que portamos conosco é o que realmente precisamos durante a jornada.

Independentemente da duração da vida de uma pessoa, sejam setenta, oitenta ou cento e vinte anos, esse período não passa de uma estada temporária em locais transitórios. Nesta perspectiva, o corpo físico não está em conflito com a dimensão espiritual; e tal compreensão resultará em prosperidade não apenas em nosso mundo interior, mas também no plano físico.

Shabat Shalom Umevorach!